Rio de Janeiro, ANO VI - No 23, junho e julho/98  







    "No caso de odontologia, eu considero que essa especialidade possa sofrer uma crise semelhante a que a classe médica já passou nos últimos dez anos".





    "Numa economia de mercado como no Brasil, não se aplicam as soluções adotadas pelo governo cubano...".





    "No modelo liberal, pode-se fazer o que quiser, não importando se a atividade está sendo ou não necessária".
   A abertura de novos cursos de odontologia pode provocar crise no mercado de trabalho

Reitor da Universidade Estadual de Montes Claros, Minas Gerais, e membro do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais e do Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais, o médico José Geraldo de Freitas Drummond está muito preocupado com a criação de novos cursos de nível superior, principalmente na área de odontologia e medicina. Considerando que o Brasil já extrapolou o número indicado pela Organização Mundial de Saúde para essas áreas, ele considera que a abertura de novas vagas vai levar a uma situação imprevisível. “Com plena autonomia, as universidades criando os cursos que quiserem, com as vagas que quiserem e sem nenhuma ingerência das entidades nacionais profissionais, não se sabe o que vai acontecer com o mercado de trabalho”, disse, na entrevista exclusiva ao jornal do CFO.

CFO - Qual o seu posicionamento em relação à abertura de novas faculdades?
JGFD - Na área da saúde, há uma legislação específica dizendo que a abertura de novas graduações na área de Medicina, Odontologia, Educação Física, Enfermagem etc, necessita, antes de mais nada, obter autorização do Conselho Nacional de Saúde para ficar bem caracterizada a necessidade social. Nesta última década, houve no Brasil uma posição bastante forte das entidades representativas, principalmente da classe médica e da classe odontológica, de que estaria havendo um abuso na criação de cursos na área de saúde. A lei estabeleceu, então, que toda instituição, inclusive universidades, que queira criar cursos na área de saúde, tem que obter a anuência do Conselho Nacional de Saúde. A lei determina que, se o Conselho não se manifestar, quem deve se manifestar é o Conselho Estadual de Educação ou o Conselho Nacional de Educação.
CFO - Mas essa legislação vem de fato reprimindo a criação de novos cursos?
JGFD - De um modo geral, há uma demanda reprimida de cursos superiores no Brasil. E principalmente na área de saúde, a relação candidato-vaga é muito grande ainda. Então, há sempre uma tentativa de abrir novos cursos.
CFO - Mas se existe demanda, não é contraditório não se permitir novas faculdades?
JGFD - Demanda para o vestibular, mas não para o mercado. O mercado, comprovadamente, já atingiu a relação profissional-habitante considerada ideal. Por exemplo, no caso de médicos. Nós temos hoje, no Brasil, um médico para cada 760 habitantes, quando a Organização Mundial de Saúde estabelece a relação considerada ideal para países em desenvolvimento, como o nosso, de um para mil habitantes. Então, já atingimos mais que isso. A mesma coisa com a odontologia. Nós temos cerca de 80 escolas de odontologia, salvo engano, e o mercado de trabalho para o odontólogo começa agora a apresentar problemas, como acontece no caso de mercado de trabalho para médicos.
CFO - Mas há determinadas localidades com falta de profissionais. Como isso pode ser resolvido?
JGFD - O Brasil é diferente dos países cujas economias são planificadas centralmente e cujos governos determinam quantos profissionais podem ser formados, em que área e em que locais podem trabalhar, como em Cuba, que visitei recentemente. Numa economia de mercado, como a do Brasil, não se aplicam as soluções adotadas pelo governo cubano. Aqui, com a lei de oferta e procura, vamos encontrar regiões, como o Norte e o Nordeste, onde a densidade demográfica profissional em relação a de habitantes é muito pequena. Só que o profissional que é formado em odontologia ou em medicina não vai para um município onde não haja condição de mantê-lo. Isso é uma questão básica, uma questão econômica. Esse profissional, ao se formar e depois se especializar, vai preferir, obviamente, cidades maiores, onde ele possa exercer sua profissão e ter uma renda compatível com o investimento que fez e suas aspirações.
CFO - Em que cursos as instituições preferem abrir vagas?
JGFD - São cursos chamariz, onde há uma concorrência maior, por exemplo, o de medicina, odontologia e fisioterapia, que chamam candidatos para a universidade. Como a universidade ou faculdade particular estabelece um valor de mensalidade em que ela possa aferir lucro, quanto maior a procura, maior o valor.
CFO - Qual é o tipo de aluno que procura esses novos cursos?
JGFD - Em geral, o reprovado por uma instituição pública. As universidades públicas são mais procuradas por serem melhores, em média. É claro que há exceções, mas no Brasil a tônica é essa. A disputa é muito grande. A demanda se dá pelo pessoal que não tem qualificação, como é exigido, e não consegue entrar na pública. Logo ela fica sendo a clientela das particulares, de um modo geral.
CFO - É muito grande o número de cursos de medicina e odontologia no Brasil?
JGFD - Neste ponto, há até uma coincidência. Hoje, os cursos de graduação em odontologia e de medicina estão praticamente equiparados em quantidade, em torno de uma centena. Fazendo os cálculos, isto leva a formação de cerca de 10 mil médicos e cirurgiões-dentistas por ano. O mercado de trabalho não absorve. O máximo que consegue colocação fica em torno de seis mil. No caso de odontologia, eu considero que essa especialidade possa sofrer uma crise semelhante a que a classe médica tem passado nos últimos dez anos.O mercado de trabalho para o odontólogo começou a se estreitar, de maneira mais evidente, agora, no final da década. Como vai se ter um mercado de trabalho, se o poder aquisitivo do povo brasileiro não mudou muito e os custos foram elevados? Mas as instituições que querem criar novas escolas não estão preocupadas com isso. Mas tão somente em resolver seus problemas empresariais.
CFO - O que acontecerá se continuarem a formar profissionais de um nível mais baixo?
JGFD - Eu acredito que essa situação, no Brasil, vai desembocar numa situação mais séria. Com plena autonomia e as universidades criando os cursos que quiserem, com as vagas que quiserem e sem nenhuma ingerência das entidades nacionais profissionais, como o Conselho Federal de Odontologia, o Conselho Federal de Medicina e outros, não se sabe o que vai acontecer com o mercado de trabalho.
CFO - A livre concorrência na área de educação não tem dado certo?
JGFD - Realmente...São as incongruências do capitalismo. No modelo liberal, pode-se fazer o que quiser, não importando se a atividade está sendo ou não necessária. O mercado é que vai regular, mas até isto acontecer, você sabe como é que é. Pode-se criar um mercado artificial, e nós criamos muito essas questões no Brasil.
Além disso, há uma outra agravante.A nova Lei de Diretrizes e Bases, a de número 9.394, de 1996, estabelece parâmetros de qualidade para a criação de cursos superiores no Brasil, que não existiam antes. E um dos parâmetros de qualidade é a titulação do corpo docente. Hoje é exigido, para que se tenha um curso e uma instituição reconhecidos, no mínimo 30% dos seus professores com título de mestre e doutor. Sabemos perfeitamente que existem dificuldades no Brasil. Embora a pós-graduação brasileira esteja se notabilizando no contexto mundial como sendo uma das melhores, ainda há dificuldade em conseguir professores nas áreas tecnológicas e de saúde com o título exigido, principalmente em cidades do interior. E o que a gente percebe é uma proliferação de cursos exatamente nessas cidades menores.






Copyright © 1998
MLS Projetos de Informática
Browser Netscape 2.0 ou Internet Explorer 3.0