ANO VIII · Nº 41
  NOVEMBRO/DEZEMBRO DE 2000
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 Entrevista

Kátia Born (PSB), prefeita reeleita de Maceió (Alagoas)

Prefeita-dentista aposta no sucesso do
Programa Saúde da Família


  Reeleita para a prefeitura de Maceió, a cirurgiã-dentista Kátia Born tem, como poucos representantes do Executivo no país, autoridade para falar da implantação do Programa Saúde da Família, que acaba de incluir a Odontologia. Com 25 anos de formada, Dra. Kátia é uma militante da saúde pública – a vocação para a política, exercida há 20 anos, ela descobriu quando atendia a população em um posto de saúde da capital de Alagoas. “Com o PSF, em quatro anos mudaremos o perfil da saúde bucal de Maceió”, planeja a prefeita de olhos azuis, cabelos vermelhos e que traz na alma a cor da Odontologia.

De Macéio, Marcelo Pinto




É um momento muito feliz, pois iniciarei o segundo mandato já com a equipe de saúde bucal no PSF

     De dentista a prefeita de Maceió, como foi sua história?
     Concluí o curso de Odontologia com 21 anos, fiz concurso público e fui trabalhar no Vergel, um bairro muito carente de Maceió. Então eu comecei a fazer um trabalho de educação em saúde oral. Se no Inamps (hoje INSS) faltasse água ou material, fazíamos passeata com as mães e as crianças, isso ainda em plena ditadura. Foi dessa forma que entrei na política. Em 1979, participei da campanha pela Lei da Anistia liderada pelo senador Teotônio Vilela (de Alagoas). Em 81, fui presidente do Sindicato dos Servidores da Previdência e da CUT local. Em 82, me elegi vereadora, mas continuei trabalhando como dentista no mesmo posto de saúde. Só parei de exercer a Odontologia 10 anos depois, quando assumi a secretaria municipal de Saúde de Maceió.

     Em que medida a sua profissão contribuiu para a carreira política? ,br>     A Odontologia me ensinou muito, porque eu aprendi que a saúde começa pela boca. Ela está presente em tudo, no falar, no sorrir, na forma de se alimentar, ela é a apresentação da saúde.

     Como essa visão de saúde bucal se traduziu na sua gestão como secretária de Saúde?
     Para começar, no primeiro programa de atendimento municipalizado de saúde bucal de Alagoas. Hoje, todas as crianças matriculadas na rede municipal são assistidas por um programa que inclui desde prevenção até tratamento de canal. Além disso, estreitamos o relacionamento com o CRO-AL, na fiscalização do exercício ilícito da profissão.

     As verbas federais do Programa Saúde da Família serão administradas pelos municípios. Sendo dentista, a senhora naturalmente será muito cobrada pela classe odontológica...
     Eu não tenho dúvida disso. Há mais de quatro anos a gente está brigando para que a Odontologia seja integrada ao PSF. Esse é um momento muito feliz porque iniciarei o segundo mandato já incluindo a equipe de saúde bucal no programa. Com mais 60 equipes do PSF eu cubro a cidade inteira.

     A tendência, então, será investir mais em PSF do que em postos de saúde?
     PSF é o futuro. Eu fui a Cuba recentemente e fiquei fascinada com a organização das equipes de lá. Aqui, com a implementação total do PSF, acredito que em quatro anos nós mudaremos o perfil da saúde bucal em Maceió.

     Como a senhora vê a atuação da maioria dos prefeitos, que relegam a saúde bucal a um segundo plano?
     É uma questão de saber que saúde começa pela boca e desde muito cedo. É um processo educacional que deveria ser abraçado por todos os prefeitos. Já não existe a campanha de vacinação? Por que não fazer o mesmo com a prevenção bucal? Freqüentemente, sou convidada para dar palestras em universidades. Nessas ocasiões, eu procuro mostrar para o estudante de Odontologia a importância da participação dele no serviço público.

     O que a senhora diria para os demais prefeitos que receberão a mesma verba para implantar a Odontologia no PSF?
     Onde eu puder interferir, dar palestra, onde eu puder falar com o prefeito para que o Programa Saúde da Família se estenda para a área de Odontologia, o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Odontologia não tenham dúvida de que eu farei. E essa não será uma luta só minha, mas de todo o setor de saúde pública do Brasil, que contará, certamente, com a pressão das entidades odontológicas.