Ano 14 - Nº 71 e 72

 Mar - Jun de 2006
 www.cfo.org.br
 294 mil Exemplares

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Capa do Jornal do CFO


SUA OPINIÃO

O CFO perguntou na edição passada:
"Você acha que o uso das terapias complementares na odontologia deve ser regulamentado?"
Veja a resposta da classe pela internet:
NÃO 8,39%
Números em formato Pizza
SIM 91,61%

O CFO quer Sua Opinião na próxima edição:
Você concorda com a iniciativa do CFO de premiar os municípios que mais investem em saúde bucal?
 COPA DO MUNDO


Quando a odontologia
entra em campo

Eles examinaram a boca das equipes que conquistaram quatro Copas mundiais de futebol para o Brasil. Mário Trigo (58-62) e Carlos Sérgio (94-02) têm muita história para contar.

Seus nomes não costumam aparecer ao lado dos craques que foram campeões do mundo vestindo a “amarelinha”, como Pelé, Garrincha e Nilton Santos, ou Ronaldo Fenômeno, Cafu e Roberto Carlos. Mas o trabalho que realizaram foi de uma importância fundamental, ainda que discreta, nas conquistas de quatro títulos mundiais: 1958, 1962, 1994 e 2002.
Estes craques da Odontologia que ajudaram o futebol brasileiro a colecionar títulos nunca ganharam nada da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) além de prestígio – mesmo assim, nem sempre à altura da contribuição prestada.
Seus nomes: Mário Trigo e Carlos S érgio Araújo.

Pai da “odontologia esportiva”

Eterno apaixonado por futebol, a ponto de jogar algumas partidas pelo Fluminense (como amador), o cirurgião-dentista Mário Trigo chegou à seleção nacional através do médico Hilton Gosling, que conhecera na época da universidade e com quem trabalhara em clubes cariocas. Recém-convocado, Trigo logo viu sua habilidade e senso de oportunismo serem postos à prova: às vésperas da viagem para a Copa da Suécia, em 58, tinha diante de si o desafio de deixar em dia a saúde bucal de 33 atletas.
Como não havia estrutura de atendimento na CBD (antiga CBF – no lugar de Futebol usava-se “Desporto”), ele buscou, e conseguiu, o apoio da universidade por onde havia se formado: a UFRJ – à época, Universidade do Brasil. Em seguida, pôs em prática seu “planejamento odontológico”, atendendo os jogadores a partir das instalações da universidade, que ainda cederia seus estudantes de Odontologia. No “time” de Mário Trigo atuavam 15 estudantes que faziam os exames e encaminhavam ao mestre os casos de cirurgia.
O saldo desse esforço concentrado, embora tenha livrado a seleção das temidas dores de dente, revelou o verdadeiro estado da boca dos atletas, mais semelhante a um esburacado campo de várzea: ao final, tinham sido extraídos nada menos do que 118 dentes – considerando os 33 jogadores, dava uma média de 3,5 dentes para cada um. “Extrações que poderiam ter sido evitadas, se houvesse tempo para o tratamento”, esclarece. Extrações que ele conseguiu evitar nos clubes cariocas em que atuou. Nesse período, ele notou que os atletas que apresentavam maior demora na recuperação de lesões eram justamente aqueles portadores de focos dentários. A partir daí, desenvolveu a tese que aplicaria na seleção brasileira com sucesso, a do “foco dentário com repercussão a distância”: segundo ela, a bactéria do foco dentário, após um tempo, entra na circulação sanguínea, espalhando-se como uma metástase e minando o sistema imunológico. Nesse caso, a única forma de acelerar a recuperação do atleta lesionado é tratando o foco dentário. Trigo cita um jogador que se beneficiou de sua intervenção: Zagallo - ao lado de quem o “pai da odontologia esportiva” foi bicampeão mundial. Mário Trigo, diga-se de passagem, foi, até hoje, o único cirurgião-dentista a viajar com a delegação brasileira e a receber as faixas de campeão juntamente com os atletas - em 58 e 62.

Futebol e saúde bucal: falta entrosamento

Carlos Sérgio, que desde 1991 atende as seleções brasileiras sub-15, 17 e 20 e a principal, não hesita em reconhecer o legado do mestre. Mas como não poderia deixar de ser, sua participação reflete a própria evolução da Odontologia, que além de uma técnica mais apurada, conta agora com um suporte tecnológico que não existia décadas atrás. Com mais de 500 casos clínicos documentados – muitos deles, de jogadores que estão na Copa da Alemanha, como Kaká, Robinho, Adriano, Dida, Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo Fenômeno –, ele reúne informações que são uma radiografia do modo como os dirigentes do nosso futebol tratam a saúde bucal.
Usando o vocabulário da bola, é como se Mário Trigo tivesse feito um lançamento em profundidade, lá de 1958. Trinta e três anos depois Carlos Sérgio matou a bola no peito, e desde então vem suando a camisa para mostrar aos dirigentes do futebol brasileiro que a Odontologia merece o mesmo espaço – nos clubes e na seleção – dado à Nutrição, a Fisioterapia e a Medicina de uma forma geral.
Nos clubes, a justificativa para não se contratar um profissional de Odontologia é que o atleta teria o seu dentista particular. Mas essa não é a regra. “Você acredita que o atleta que joga e treina a semana inteira, vai, nos dois únicos dias (semanais) de folga, procurar o dentista?”, rebate Carlos Sérgio. Não é difícil imaginar a resposta. Segundo levantamento feito por ele, dos 42 clubes que cederam jogadores para as divisões da seleção, de 1991 para cá, 32 (76%) ainda não têm consultório odontológico em suas sedes. Até o momento, somente 10 clubes fazem a diferença, entre eles, Flamengo, São Paulo, Vasco, Palmeiras, Internacional, Grêmio e Cruzeiro. Surpreendentemente, clubes com boa estrutura empresarial, e que pagam altos salários a seus jogadores, mereciam o rebaixamento no campo da saúde bucal. Exemplo? Corinthians, Fluminense, Santos e Botafogo. Na comparação, porém, os clubes que oferecem atendimento ainda precisam marcar mais pontos para ficarem bem na foto. De acordo com o mesmo levantamento, nenhum clube faz exame bucal no início de temporada, a exemplo dos exames cardíaco, de sangue, fezes etc.
A raiz – com trocadilho, por favor – dos problemas dentários dos jogadores está, como se vê, na desinformação dos clubes. Carlos Sérgio coleciona histórias que comprovam isso. Na preparação para a Copa de 94, ainda na Granja Comary, fez uma descoberta inusitada: um dos atletas convocados já usava, aos 27 anos, prótese total superior – um jogador que tinha passado pelo rico futebol japonês e que poderia ter feito implante. Apesar dos pesares – e das cáries –, Carlos Sérgio reconhece uma sensível melhora. “Antigamente, a cada prepara ção via uns 15 atletas com problemas sérios. Hoje, não chega a cinco”, diz.

Universidade garante atendimento na CBF

A exemplo de Mário Trigo, Carlos Sérgio só conseguiu viabilizar uma estrutura de atendimento para a CBF graças ao apoio de uma universidade: dessa vez, da Unigranrio (Duque de Caxias), onde dá aula no curso de pós-graduação de Ortopedia Funcional dos Maxilares. Pelo menos um passo adiante foi dado em relação a seu antecessor: agora, o consultório completo foi montado na própria Granja Comary, onde geralmente é feita a concentração para os torneios internacionais e olimpíadas. Carlos Sérgio faz exames clínicos e atende casos de respiração bucal e OFM, e é auxiliado pelo CD Afonso Rocha (secretário do CRO-RJ), nas áreas de traumatologia e patologia. Na parceria com a CBF, a única contrapartida da faculdade tem sido a divulgação na mídia. Aliás, o momento de maior exposição foi na preparação de 94, quando Carlos Sérgio, em meio aos exames de praxe, precisou atender numa emergência o jogador Palhinha, que havia quebrado o dente durante um treino. Por conta do episódio, o craque da Odontologia foi bastante solicitado pela imprensa. São tantas histórias que daria para escrever um livro. Como fez Mário Trigo, com o seu “O Eterno Futebol” – que terá 5 exemplares sorteados entre os profissionais de Odontologia através do site do CFO, durante a Copa. Com prefácio do jornalista Juca Kfouri, a obra traz histórias preciosas.
Carlos Sérgio, por sua vez, continua escrevendo sua história na seleção. E como o capítulo atual é uma nova Copa do Mundo, ele aproveita para dar seu recado, lamentando a ausência da Odontologia na delegação que viajou à Alemanha. “Mesmo numa competição curta como a Copa do Mundo, muitos traumas acontecem. Às vezes, surge um trauma de articulação, um problema do aparelho fixo, uma lesão na boca, uma afta, um dente que cai em campo. Quem vai ver isso?”, desabafa este CD que examinou mais da metade da atual seleção titular de Parreira.

Marcelo Pinto

 

Mário Trigo

Ficha técnica

Mário Trigo
Idade: 95 anos
Copas do Mundo: 1958 - 1962 - 1966
Atletas examinados: na preparação para 58, examinou 33 jogadores, dos quais se viu obrigado a extrair 118 dentes.
Universidade (que cedeu estrutura para atendimento): UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Posição em que jogou dentro da Odontologia:Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofaciais

 

Carlos Sérgio Araujo

Ficha técnica

Carlos Sérgio Araujo
Idade: 56 anos
Copas do Mundo: 1994 - 1998 - 2002
Atletas examinados: mais de 500 casos documentados
Universidade (que cede estrutura para atendimento): Unigranrio (Duque de Caxias)
Posição em que joga dentro da Odontologia:Ortopedia Funcional dos Maxilares